sem título

Hoje pensei nos últimos acontecimentos da nossa relação. Os últimos capítulos, sabe? Quando deixei a porta aberta e você continuou ali na sala, sentado no sofá creme com um copo de cerveja mirando a tevê sem sequer prestar atenção. Foi assim que você reagiu às minhas palavras que exprimiam todas as angústias, desejos, ódios e qualquer coisa parecida que estavam esmagados na sacada do meu peito. Sim, você estava lá, agregado a isso tudo. Terminei a conversa - ou o monólogo se não contar suas expressões faciais e corporais - e passei pelo corredor, apaguei a luz do quarto e deixei a porta aberta. Você me disse com o olhar "é minha culpa". E a impressão que tenho agora é de assistir a um filme, essa cena, a câmera logo atrás do sofá, seu perfil atônito. Cena muda. Como se tudo o que restasse ali fosse o vazio.

O som da tevê inunda os espaços vazios da casa, como quando você sai e eu ligo o som para não me sentir sozinha. Como se em algum momento isso deixasse de fato de acontecer. Ocupo meu dia com leituras entre goles de café ou chá gelado e o calor anda insuportável agora que passo os dias e madrugadas em casa acompanhada por você. Quando estava fora parecia melhor, me sentia aliviada e sentia mais saudade. Talvez não mais, contudo era uma saudade boba e inocente. Era saudade de superfície e se resistia profundamente a qualquer possibilidade de imersão.

Além das leituras adquiri novos hábitos, te enxergar nas coisas foi o mais insuportável; pois, não bastasse sua presença, não escapava um personagem sem semelhança. Lembro de um dia que te contei coisas de família - aquelas que exalam insatisfação e medo, às vezes até desesperança. Sempre achei que a esperança fosse algo que as pessoas se agarram quando já têm certeza da impossibilidade. Reprimi uma vida inteira de esperanças entre realizações e desistências. Quando acreditava que ia dar certo ia lá e fazia; caso contrário, desistia. Obviamente com o passar dos anos percebi que nada acontece assim. E você foi prova disso. Mesmo acreditando que ia dar certo eu desistia e mesmo quando tudo parecia perdido eu insistia.

Essa história, essa nossa história, me provocou e alimentou os paradoxos mais difíceis de conflitar até hoje. É um romance às avessas e ao avesso de novo. É a ilusão de que o Sol se apaga como se ao fechar os olhos tudo deixasse de existir. O mundo existe para além de nós mesmos, ainda que nossa rotina insista que não. O vento carrega ilusões de um lado para o outro tanto quanto o pó e as folhas que caem na rua. É difícil saber quando as coisas principiam ou acabam, se é que isso acontece. Não sei quando ou como isso começou de verdade. Sei, claramente, em medidas de tempo e espaço; mas, sinceramente, não faz diferença. só não lembro como foi. O que eu senti, o que eu pensei na hora, onde minhas mãos repousavam ou se nelas alguma coisa se debruçava.

E é odioso pensar na incapacidade de conhecer de perto os dispositivos corporais e na cor da alma quando certas coisas acontecem. Às vezes tento pensar como quem me diz que as coisas são claras, óbvias, branco no preto, detectáveis. Se consigo encontrar em menos de um ano dezessete pintas novas na minha pele, imagina o que poderia encontrar por dentro, onde não há superfície para ancorar.

Se me perguntam que tipo de pessoa eu sou, só posso responder com a pele e os cabelos, com o que diz minha boca ou gesticulam minhas mãos. Mas eu não falo pelas constelações que meus olhos não enxergam.

Se para ver estrelas em São Paulo é preciso olhar do alto para baixo, como faço para examinar as veias que correm no meu corpo sem arrancar a pele? Como faço para te enxergar assim, preto no branco, se cada átomo do teu corpo me acerta com uma nova cor?
Não, eu não quero ir sozinha,
mas não, eu também não quero
ficar imersa no vazio da companhia.

Não quero engasgar com uma frase mal dita,
nem ser acolhida em um abraço desabitado.

Não vou deixar que meus ouvidos
sejam porto de frases repetidas
intercaladas pelo silêncio da dúvida.

Minhas palavras chegam na areia
revelando o caos, feito onda.
É tudo superfície.

Mas meu silêncio tem
criaturas incríveis e desconhecidas.
É o fundo do mar inatingível
que me carrega a todos horizontes.

Não, eu não quero procurar sozinha,
procurar em cada onda tua
pelo menos uma gota de profundidade.

againagainagain





você canta e me conta,
o amor vai nos separar de novo
como se o amor, esse amor
tão espontâneo,
tão silencioso,
fosse feito âncora
um peso, um contrapeso
um freio para o que vem.
você canta e me conta,
o amor vai nos separar de novo
como se a embarcação já tivesse partido,
como se o dia permanecesse depois da madrugada,
como se o teu suor fosse escoado
por qualquer banho gelado.
como se saísse algum som
dessa boca que de tão pequena
não faz alcançar a voz ao ouvido
que agora escuta quando eu canto e conto,
o amor vai nos separar de novo.

pulsares


Quanto tempo leva?
Pro ar subir e descer,
encontrar cada célula,
quanto tempo leva?

Pra uma lesão na pele ter os vasos rompidos,
se transformar em hematoma,
quanto tempo leva?

Pro dia virar noite,
pro arco íris aparecer,
pra chuva cair no solo,
quanto tempo leva?

Pra voltar a respirar depois do afogamento,
depois do sufocamento,
depois de uma intensa percussão coronária,
quanto tempo leva?

Pro cheiro sair da pele,
pro cheiro sair da cama,
quanto tempo leva?

Pra carne chegar até o osso
pro ligamento torcer até a dor,
quanto tempo leva?

Pra dissipar a energia de um amor tanto
pra molhar a boca pequena de vontade
quanto tempo leva?

Pra cerrar os olhos e dormir,
pra deixar o claro entrar,
pra deixar a pele encostar,
pra deixar o corpo gemer,
quanto tempo leva?

Pra deixar o medo se sentir Rei
e derrubá-lo num golpe de gozo.
quanto tempo leva?

Quanto tempo leva
pra perceber que o tempo não leva a tempo
 o que pulsa em pouco ou muito tempo?
por dentro da arte
o espelho é o estar
do outro que vem
o som que me cerca
me cerca, me seca, me cega.

sem pausa

Triturei sua três por quatro, esquartejei sua identidade, fui acusada por um crime que cometi na esquina da Rua das Palmeiras com a Geral, era madrugada e destruí tua existência, e a culpa foi sua, já que quanto mais me entrego mais tenho a face esfregada ao chão pelas condenações e exposições a que você me submete constantemente; e, claro, não houve nem tempo de sentir tristeza ou arrependimento, pois meus dedos se inundaram de raiva antes de desarraigar cada pedaço de pele do rosto, do seu rosto, este que continuava a sorrir escorrendo ironia e prazer por entregar aos outros o que entrego a poucos a imenso custo e, tudo isso, somado ao retalhamento da tua face, se justifica à facilidade que você tem de tentar possuir os outros, de tentar conter os outros em suas formas, dilemas e problemas ou, até mesmo, de privar a expressão de potência interna, que te falta um tanto, reprimida e impressa na face interna dos outros que não condeno nem desfaço nem retalho, como fiz com tua identidade na madrugada de sexta na esquina da Rua das Palmeiras com a Geral, crime que fui condenada; já que, aparentemente, não é permitido pelo código penal destruir a face de outrem, ainda que o mesmo tente escarnecer a outra lei que diz “não é permitido reduzir ou aniquilar a capacidade de expressão de potência interna alheia”, ato que você sem recear repete todas as noites na esquina da Rua das Palmeiras com a Geral onde esfacelei e despedacei seu desejo de enterrar o potencial de vida dos que te cercam, assim como eu, condenada por um crime que talvez não tenha cometido, posto que a culpa não seja minha independente do ato, pois os atos atravessados em esquinas não dão conta da proporção da geral, do habitual ou do comum; e comum você não quer ser, portanto enfia pela goela a vulgaridade que publica a tua situação interna nos outros, que não são ordinários e nem mesmo carregam sobre os ombros a inépcia que te transborda, da mesma forma que se espalhava pela esquina, aquela que não sabe a proporção da Geral, onde o ínfimo não conhece seu antônimo, onde você foi desalentada por não saber conter em si a própria vulgaridade.

É que eu nunca sei bem por onde começar. Não sei se começo pelo cabelo ou pelos pés. Se a pele é mais importante que o emaranhado visceral. Se a falta de um órgão faz enorme diferença ou se posso substituí-lo com alguma coisa – já fiz isso, mas será que serve pra qualquer um? Se qualquer coisa que absorvo me absorve da mesma forma, se o que transbordo pinga do lado de dentro e se o que gotejo em veias inunda o território que pertenço. Se pertenço. Se faço parte do metro seguinte e, se sim, de que forma estou ali, o metro seguinte é a ausência do corpo que se fixa no metro de agora. São distâncias internas projetadas em afastamento objetal. E as pessoas? Não sei se começo por elas, por o que é delas, pelo que são ou estão. Se a ficção é maior que a realidade ou apenas um tanto mais devastadora. Não, a realidade é devastadora e a ficção é conveniente – conveniência carregada de todos seus significados e sinônimos. É gratuito e espontâneo, e eu não sei por onde começar.